Opinião | Vertigens

LUÍS PEDRO MATEUS
VICE-PRESIDENTE DA DISTRITAL DO PORTO DA JUVENTUDE POPULAR

Do último congresso do Partido Socialista, por entre o silêncio ensurdecedor do tema “Sócrates”, ecoou de forma bem sonora o mote de um novo PS virado à esquerda. A dialética da "rejeição das políticas de direita” é, no entanto, uma pseudo-novidade. O Partido Comunista repete-a ad nauseam desde que em 1975, dizem, o “PS colocou o socialismo da gaveta”. No seio do PS tinha competido à Juventude Socialista, quase sempre mais à esquerda do que a ala esquerda do partido, fazer cavalo de honra dos tão sonhados entendimentos alargados à esquerda.


Que políticas se rejeitam, afinal?
Não se sabe muito bem. Abordam-se muito superficialmente pontos estruturantes como o Pacto Orçamental ou a sustentabilidade da Segurança Social, mas o enfoque vai para a refutação apaixonada de coisas tão genéricas como o "ataque ao Estado Social”, a "política de empobrecimento” e o “neoliberalismo”.

Numa linha que mais se assemelha ao Partido Comunista ou ao Bloco de Esquerda (que a usa, curiosamente, contra o próprio PS), o intuito de programa que se começa a desenhar é de rejeição, não de alternativa.
No entanto, de um ponto de vista governativo (na hipótese de ser o PS o próximo vencedor das legislativas) a preocupação maior está longe de ser esta.

Ou seja, a questão de o PS preferir alianças à esquerda é francamente inócua na medida em que a probabilidade de isso se efectivar é a mesma que a do PCP ou BE ganharem as eleições legislativas.
O guião é mais do que conhecido: 1) alguém no PS anuncia a intenção de uma plataforma de entendimento; 2) PCP e BE rejeitam prontamente ou aceitam discutir e apresentam propostas inaceitáveis que os forçam a sair da mesa de negociações; 3) PS fica sozinho e só se pode entender com PSD e/ou CDS.


O problema de fundo assenta obviamente na dificuldade identitária que o PS, juntamente com o resto da social-democracia europeia, actualmente atravessa. A ideologia de pendor profundamente redistributivo vê-se incapacitada e esvaziada na circunstância de um Estado com cada vez menos base contributiva disponível e tecnicamente incapaz de continuar a ser motor de avultados "estímulos económicos" a agentes rentistas.

Se este problema, numa primeira análise, pode parecer como apenas respeitante à vida interna do Partido Socialista, o mesmo já assume contornos preocupantes se se considerarem questões de salubridade do sistema representativo sustentado por partidos e eleitores.

De forma recorrente os eleitores têm suportado plataformas eleitorais que, assim que eleitas, contradizem com incauto despudor - por razões mais ou menos atendíveis - promessas basilares de que fizeram bandeira eleitoral.

José Sócrates iria baixar impostos e trazer crescimento económico com um ambicioso programa de investimento público. Deixou uma carga fiscal asfixiante, desemprego recordista, bancarrota e o FMI. O Sócrates "indisponível para governar com o FMI” era o Sócrates candidato a governar sob seu jugo.
Pedro Passos Coelho, então em campanha pela liderança do PSD, prometia não aprovar qualquer aumento de impostos do Partido Socialista. Já líder do PSD, aprovou dois PEC’s. Em campanha de legislativas, prometeu não subir impostos nem cortar pensões. No Governo, foi mais uma vez forçado a inverter a marcha.
António Costa parece apostado em embarcar pelo mesmo destino. Quiçá com proporções ‘hollandísticas’ para o PS e - esperemos que não - helenísticas para Portugal.

Hoje, o risco de inversão de marcha discursiva e suas contínuas consequências no descrédito de governantes e instituições continua bem presente, com a agravante de já se situar com vista para resultados demasiado imprevisíveis.
Um PS apostado no caminho fácil e eleitoralista da assunção da austeridade como mera opção de determinado governo é um PS condenado a colher os frutos podres assim que seja governo. E com ele, o regime como um todo.

O que separou e separa Portugal da Grécia não foi nem é apenas mais eficácia na implementação de remédios austeros às contas públicas. Além de questões culturais e históricas, foi e é um panorama geral de governabilidade alcançável. Em tempos tão populistas e vazios como os actuais, a governabilidade portuguesa é cada vez mais uma aposta de roleta a cada eleição que passa.

Cada vez que o afrodisíaco do alcance do Poder suplanta o estoicismo da Governabilidade alcançável, perdem-se eleitores.
Quem, então, alcançará a maioria dos não arregimentados?
E, bem mais importante, para que efeito?




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