Opinião | #SomosTodosLivres

LUÍS PEDRO MATEUS
VICE-PRESIDENTE DA DISTRITAL DO PORTO DA JUVENTUDE POPULAR

Não é honesta nem inteligente a análise generalista de que islão e terrorismo são uma e a mesma coisa. Importa ter em conta a população muçulmana europeia (e não europeia, já agora) para perceber o quão marginal é o fenómeno radical e terrorista que, pela sua exímia organização e impacto operacional, consegue extrapolar a percepção da sua grandeza e real ameaça.


Não é também honesta a análise simplista que apenas trata o problema como sendo meramente criminal, furtando-se a qualquer possível conotação religiosa, étnica, política ou cultural. Sim, há certamente uma maior dificuldade de encaixe na generalidade do mundo islâmico de conceitos como liberdade de expressão, ou mesmo liberdade em geral. Uma breve vista de olhos pelo mapa mundo basta para se perceber o quão raros são os exemplos de verdadeira tolerância religiosa e política fora do Ocidente. Nada de novo aqui.

O que é então mais preocupante? O que nos é fulcral reflectir? 


Primeiro, que há um problema premente de assimilação cultural em algumas grandes cidades europeias. Este agudiza-se com critérios demasiado flexíveis de políticas de imigração, com o brotar de 'guetos' e radicaliza-se mais com uma contínua e pouco reflectida intervenção de potências no mundo islâmico.

Segundo, que uma sociedade multicultural não pode ser uma sociedade niilista, relativista e envergonhada dos seus valores. O Estado laico, a separação de poderes, a liberdade individual são um produto, prolongamento e continuação de valores de uma matriz judaico-cristã que incorporou e assimilou mais de um milénio de tradição greco-romana.


Terceiro, que as famosas "quintas colunas" não se reduzem apenas a minorias islâmicas de pendor e agenda ditatorial. O radicalismo, a intolerância, o desrespeito visceral pela Liberdade do outro fazem ninho em muitas cabeças (algumas, de suposta educação cristã) que, em vez de AK47 e jihad, querem no poder coercivo do Estado as balas para a censura e ditame do que cada um - mesmo que no total respeito da liberdade e integridade do próximo - possa dizer ou fazer.

Conclusão? O caminho da história e da tradição aqui nos trouxe. A constante procura de verdade, paz e significado no que fazemos trouxe-nos as grandes ideologias do mundo, os arquétipos governativos, a magna ciência moderna, o livre comércio, o Shakespeare, o Mozart, a Amália e o Pessoa, e sim, também o Chaucer e o Gil Vicente, o Chaplin e os irmãos Marx. Nem tudo tem de ser sério e bonito. Nem todos, sendo cada um de nós único, poderemos alguma vez gostar das mesmas coisas. Podemos gostar da libertinagem dos Sex Pistols, da incompetência do Zé Cabra, da 'jabardice' da Casa dos Segredos ou da irracionalidade do futebol.

É tudo isso - o belo, o grotesco, o elevado e o rasca - que justifica que se defenda, com unhas e dentes, a liberdade de existência e exercício de publicações como o Charlie Hebdo. Sejamos felizes por nós, por nós em Deus ou pelos outros, mas sempre, por amor de nós, de Deus ou dos outros, não nos imponhamos em covarde tirania. E se o dia chegar em que estejamos pregados a uma cruz, saibamos nós, em gloriosa impertinência como Brian ou os ladrões assobiar: "always look on the bright side of life".




Tag Line