Opinião | De Teeteto a Babel

ANTÓNIO VIEIRA DE CASTRO
VOGAL DA DISTRITAL DO PORTO DA JUVENTUDE POPULAR

Terrorismo é palavra que fere só de ler. Esconde em si as dimensões de medos e consequências de nós e dos outros; do que pensamos e do que pensam. Porque existe um outro, o outro lado da balança; do sentir, do crer e do querer, em peso desmedido, extrapolado, enlouquecido, executado e ressacado – e assim age-se; reage-se. E é a partir da condenação que daquele faço que, obviamente, encerro o que tenho a dizer sobre isso: condenando a barbárie e o vazio que o mais vazio dos homens retira da leitura e acção literais dos textos sagrados – sejam eles para quem forem, porque os há muitos.

E eis o dia seguinte... A vida não pára. Sobrou da irracionalidade coisas belas e horríveis sobre as quais vale a pena pensar, num ponto que poderia servir para definir um novo começo de um novo mundo, sob pena de revermos à frente única e exclusivamente o que deixámos para trás, numa ciclicidade que deveria recomeçar apenas na parte melhor e mais próspera da História.

É perdido assim, num ´lost in translation´, que me encontro e que encontro todos a falarem entre si. Tomam-se definições erradas como absolutas e tomam-se como donos dessas mesmas definições quem delas donos não são, porque elas são de todos. É hoje o tempo da ditadura do pretenso social pelo socialismo, na era do homem que deveria ser um pouco mais livre para ter e escolher. Babel reencontra-se nas culturas contemporâneas...



Nas últimas semanas, um conjunto obscuro de situações e de casos fez-me lembrar uma obra de Platão que li há uns bons anos. Lembrei-me de Teeteto... O jovem aprendiz de matemática que ousou questionar Sócrates num diálogo que se lê na tentativa de entender o que é a verdade e o que é o conhecimento, em parada e resposta constantes por parte do último (como Sócrates que se preze), mergulhando a compreensão dos conceitos em contínua “narrativa” de relativização subjectiva. Sempre actual, portanto...

Mas enquanto percebemos uma profundidade intrigante e curiosa num texto com milénios, hoje resta-nos a espuma das coisas. Fica, ainda assim, o relativismo, do qual só se faz uso quando convém, em pontos de vista tomados por uma certa visão egoística do ditadorzinho, que vem pulverizando a sociedade do fácil acesso a tudo, onde amigos não são mais do que aqueles que me seguem e com quem partilho o que convém. E se se atreverem a pensar diferente (de mim), não mais serão considerados. E amuo... Aqui também há um lugar para o viral, em novas modas e formas de estar que procuram naqueles que querem ser diferentes de todos, o igual.

Enquanto criamos pequenos ditadores sociais que reagem mal a quem pensa outra coisa, destilando fel e raiva lexicais, outras colectividades vão aparecendo ou perenizando-se por aí. Falo, pois, da última histeria após o ´ice bucket challenge´, a partir da qual um ´slogan´ bem mandado torna-se em mais uma acção de marketing que faria corar um qualquer CMO, ou até o próprio Kotler. As frases feitas vão progredindo em eco, assumindo-se o todo pela parte, em mentes altamente manipuláveis e cada vez mais cheias só de enunciados e do que não interessa saber e aprender, roubando espaço à reflexão mais ou menos profunda, ao tempo de assimilação, ou a informação verdadeiramente pertinente. Vozes levantam cartazes furiosos com frases carregadas de chavão típico de certas correntes ideológicas amantes das massas (ou da facilidade da manipulação das mesmas).

Vamos então àquilo que interessa, depois de já terem entendido por onde quero ir, salvaguardando a minha abjecção pelos acontecimentos sucedidos no edifício onde se localizava a sede do Charlie Hebdo, bem como num supermercado periférico, ou numa loja de judeus qualquer, onde nem a inexistência de uma cruz à porta serviu para distrair o maior dos carrascos, que com uma pontaria tremenda  decidiu continuar a praticar a loucura – não a mando e a troco de Maomé, mas de algo(ém) que só ele sabe o que é, afirmando um ´statement´ que de isolado nada tem, na iniciativa de amedrontar e limitar a civilização ocidental no berço das liberdades de 1789, das quais vivemos. Mas destes dois últimos episódios ninguém se recordará daqui a um mês... Só do primeiro: do atentado a um local com segurança paga pelo estado francês que de pouco serviu a alguns cartunistas que nem na própria concepção ideológica de estado acreditam. Assim morreram, juntamente com quem os protegia: um tal de Ahmed, muçulmano, esclarecido, integrado e são. Sobreviveram poucos, para receber um abraço fotogénico e aliviado de e para Hollande, prontamente reciclado pelos pseudo-aspirantes-a-charlies.

Mas afinal, quem é o Charlie? O Charlie é um indivíduo tendencialmente anarquista, ou de extrema-esquerda, convicto nos seus princípios (porque até os niilistas têm pelo menos esse princípio), que resolve provocar e desestabilizar o estabelecido, ou as consciências; chocar. O Charlie aponta aquilo que para si está mal, numa verdade que é só sua, mas que insiste em impô-la como verdade dos outros – especialmente para quem não sabe o significado da palavra: laicidade. O Charlie tem medo sem o admitir, como quem tem “cú”, mas arrisca, tenta, rompe com aquilo que para nós, sociedade judaico-cristã no âmago, somos. E o mais curioso é que quem é Charlie não o diz ser, perdendo a oportunidade de fazer prevalecer os seus ideais. Mas todos os outros são. Não duvido! Mas com apelido diferente...

Estou, portanto, convicto de que foi o Charlie que se manifestou – talvez o Brown, em filinha como elefante subtil em marcha de migração. Convicto ainda mais dos Charlies que barram uma piada do Sinel de Cordes, ou do anúncio censurado do Futre. Convicto, por fim, de que o Saramago também era Charlie, no tempo do DN...

Não é mau não ser Charlie. Mas também há “não-Charlies” e “não-Charlies” ... Eu não o sou! Assim como não o és tu, porque viste o Mário Crespo, o Herman e o Gobern serem censurados e não fizeste puto, porque publicaram contra a subjectividade do “bom gosto” relativo, dos tiques do poderzinho, ou de um tipo carrega o botão da câmara errada na hora errada a partir de uma ´régie´. Porque foste parte daqueles que ficaram mais preocupados com a camisa com gajas nuas do Matt Taylor e o obrigaste a pedir desculpa humilhada, enquanto o homem chefiava uma equipa que colocava um aparato tecnológico num calhau perdido de inércia no meio do nada. Porque foste tu que viste o Arménio Carlos a chamar escurinho a um dos “Reis Magos” da ´troika´, mas só te revoltaste quando foi o Berlusconi a fazer coisa parecida com o Obama, ou a polícia americana a matar, “exclusivamente” e do nada, negros, mesmo com um largo historial bastante ecléctico.  Porque o deputado Cabrita tirou o microfone ao secretário de estado e só te riste. Porque não deixaste que o Gustavo Santos dissesse o que pensa desta tragédia toda. Porque permitiste que a Luciana Abreu fosse obrigada a esquecer-se  de um das vertentes do nosso sotaque do Grande Porto enquanto apresenta um programa qualquer da capital centralista e umbilical, pois é parolo falar como os gajos “lá do Norte”.

O verdadeiro Charlie é culto, insurgente, anti-sistema, ou anti-regime. O verdadeiro Charlie é influente, indiscriminador no ataque ou discriminador, se acreditar no sistema mas não se revir nele. O verdadeiro Charlie é, por exemplo, o JUP, porque se assume corajosamente e livremente e porque publica com dinheiro público e linha editorial a condizer com alguns dos seus elementos directivos este maravilhoso artigo do Sr. Tiago Vaz, que terá certamente a mesma flexibilidade intelectual para aceitar o apelo de outros tempos, de putos sem convicção, em crise (de dinheiro e de valores) e sem internet ou i-qualquercoisa, que se alistavam nos “ismos” que ofereciam um fato de um estilista hoje famoso entre

´progressistas´(os mesmos que também gostam do “carrodopovo” – e bem-, mais ´premium´ que nunca). Isto é ser Charlie. Com mais ou menos coerência, mas, acima de tudo, com convicção férrea. Até às últimas consequências.

Ou então não. Ou então tudo isto é uma treta. Tudo é uma falácia. Porque somos o que nos convém ser, sem obedecer àquilo que tornou a convivência do Homem possível entre si, na sua pluralidade de personalidade, por intermédio do Direito.

O relativismo será sempre bom enquanto não nos bate à porta. Uns reagem matando, outros reagem insultando, outros aceitam, outros não estão “nem aí”. Mas para que todos consigam coabitar, não podemos fugir das subtilezas da qualidade do bom humor como se de uma obra de arte se tratasse, em vez de publicar gratuitamente insulto: não a terroristas, mas a muçulmanos pacifistas, integrados, convictos e autodeterminados, crentes no mesmo Corão em que supostamente acreditam terroristas, mas que o interpretam de forma moderada (espero que, convenientemente, quem saiba ler  “Je suis Charlie” em francês também consiga ler esta capa [à direita]). 

Resumindo, que já vou tarde (assim muitos de vós desejais...), haja noção da susceptibilidade dos inocentes, não tomando a parte pelo todo, fazendo passar por arte aquilo que não é e que apenas passa no crivo de Nechayev, porque assim como nem todos somos Charlie, nem todos temos de ser marxistas, anarquistas, ou anti-sistema, como os “donos da liberdade” e da “democracia”, - ou os que acham que só há justiça quando vai dentro aquele de quem não gostam - querem que sejamos.

Se tais princípios não têm dono, não seremos nós, livres e autodeterminados que devemos tê-lo. Com, ou sem medo, sempre livres e pensantes, entendendo a liberdade dos outros, partindo sempre do relativismo abstracto e não do nosso relativismo; para que se possa sobreviver a Babel e encontrar a resposta que busca Teeteto. Com, ou sem Sócrates...



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